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Morrer sem oxigênio em Manaus, a tragédia que escancara a negligência política na pandemia

15/01/21

Morrer sem oxigênio em Manaus, a tragédia que escancara a negligência política na pandemia

Pacientes de uma ala inteira morreram asfixiados em um Hospital Universitário. Profissionais de saúde desesperados tendo que julgar quem deve salvar, quem deve viver. Familiares e profissionais comprando cilindros de oxigênio por conta própria visando salvar a vida dos pacientes. Manaus viveu e vive cenas de terror desde a quinta-feira, 14, depois que seu sistema de saúde colapsou e o estoque de oxigênio zerou nas unidades de saúde. Após dez meses de pandemia, o Amazonas vive uma tragédia anunciada. E evitável.

As autoridades estaduais e federais afirmam que o suprimento de oxigênio acabou devido a um salto inesperado no número de casos. Não, não foi surpresa. Infectologistas, epidemiologistas e cientistas apontavam que a redução no isolamento, incentivado por autoridades como o presidente da República, cobraria um preço altíssimo no meio de janeiro.

Além disso, a multinacional White Martins, uma das principais fornecedoras de oxigênio para os centros de saúde de Manaus, afirma que comunicou o governo federal e o governo do estado do Amazonas sobre a possibilidade de faltar oxigênio medicinal em Manaus. E que pediu apoio logístico do Ministério da Saúde. Nada fizeram, precisou acontecer uma tragédia e ela ser divulgada para o mundo todo ver, que as autoridades começaram a se mexer.

Na segunda-feira, 11, três dias antes do caos explodir na cidade, o ministro da saúde, general especialista em logística, Eduardo Pazuello, reconheceu a falta de oxigênio na cidade e disse que a única solução era esperar um novo carregamento. Pazuello deu de ombros (literalmente) e declarou: O que você vai fazer? Nada. Você e todo mundo vai esperar chegar o oxigênio para ser distribuído”. Após o colapso, o ministro diz que período chuvoso e falta de ‘tratamento precoce’ pioraram cenário de Manaus. A hidroxicloroquina e a ivermectina, o tal do tratamento precoce que o Ministério da Saúde pressionou a prefeitura a distribuir aos pacientes nos hospitais municipais, são medicamentos para malária e para tratar piolhos, ineficazes contra o coronavírus.

A tragédia nacional é fruto do descaso extraordinário, da falta de senso de emergência, do desprezo pela vida e da covardia de muitos governantes. No fim de 2020, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC) viu hospitais cheios e determinou o fechamento do comércio para conter o alastramento do vírus. Acuado por protestos fomentados por políticos bolsonaristas, entre eles os deputados federais Bia Kicis (PSL-DF), Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) e Carla Zambeli (PSL-SP), o governador desistiu e mandou reabrir as lojas.

Quando o sistema de saúde da capital amazonense foi o primeiro a colapsar no país, no primeiro semestre do ano passado, o governador do Estado, um ex-locutor de rádio e apresentador de TV de 44 anos que antes de ser eleito nunca havia administrado nada, foi acusado de comandar o esquema de superfaturamento de contratos e desviar recursos destinados ao combate da Covid-19.

A negligência deliberada ao combate da pandemia não se resume ao governo estadual. Meses antes da falta de oxigênio em Manaus, o presidente Jair Bolsonaro tem falado e agido em confronto com as medidas de proteção, em especial a política de isolamento da população. O presidente já usou as palavras histeria e fantasia para classificar a reação da população e da mídia à doença.

Além dos discursos, o presidente assinou decretos para driblar decisões estaduais e municipais, fez aglomerações, atacou governadores e prefeitos, criticou o fechamento de escolas, incentivou invasão a hospitais e vetou o uso obrigatório de máscaras em escolas, igrejas e presídios – medida que acabou derrubada pelo Congresso.

Além disso, o governo federal deixou de usar verbas aprovadas para combater a pandemia para reestruturar hospitais, contratar profissionais de saúde, comprar mais testes de Covid-19. Uma MP em maio destinou dinheiro para o Ministério da Saúde contratar 5 mil profissionais por tempo determinado. Eles deveriam atuar em áreas mais impactadas pela pandemia. Relatório da Câmara dos Deputados, com dados até 20 de novembro, mostra que apenas 4,6% do dinheiro foi efetivamente gasto. A pasta ficou autorizada a gastar R$ 338,2 milhões com a medida. Os pagamentos feitos não chegaram a R$ 16 milhões.

Desde o começo da pandemia, a CNTS tem alertado o descaso dos governos perante a pandemia, tem cobrado das autoridades medidas que visem proteger os trabalhadores da saúde e a população desta terrível doença. Tem cobrado insumos básicos aos profissionais que estão na linha de frente. Tem que recorrer à justiça para conseguir o mínimo de direitos aos profissionais.  O governo deveria ter feito mais. Muito mais. Infelizmente o que estamos vendo são autoridades que gozam com o sofrimento alheio e promovem a morte.

A colunista do El País, Eliane Brum, reforça que o caos que assola o Amazonas é negligência deliberada. “Jair Bolsonaro deixou a Covid-19 avançar e agiu para reter recursos públicos destinados ao enfrentamento da doença, para afastar os quadros técnicos com experiência em saúde pública e epidemias, para vetar medidas decisivas de prevenção e para tumultuar o combate ao vírus. Os fatos mostram que Bolsonaro foi deliberadamente incompetente, intencionalmente negligente, sistematicamente irresponsável”.

O pior disto tudo é que o colapso que acontece em Manaus pode ocorrer em outros estados, como em São Paulo, onde tanto a capital quanto cidades do interior já registram alta de mortes em decorrência do coronavírus. E em outros sete estados, que estão com mais de 80% das UTIs ocupadas. “Nesta pandemia, o que aconteceu primeiro em Manaus sempre aconteceu depois no resto do Brasil. Manaus sempre está na frente e depois a gente vai seguindo”, alertou a enfermeira e doutora em epidemiologia Ethel Maciel.

Fonte: Com informações do Estadão, Folha de S.Paulo, UOL e El País